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UX Design, Agile e gestão de pessoas

As metodologias de User Experience Design (UX) e Agile têm origens e caminhos de evolução bastante diferentes. Fazê-las cooperar, nos dias de hoje, não é fácil nem imediato. Mas é crucial.

Como referido em artigo anterior, as metodologias de UX (com as suas fases de pesquisa, idealização, prototipagem e testes de usabilidade) têm as suas raízes nos campos da ergonomia e dos fatores humanos. Após a Segunda Guerra Mundial, a análise da experiência do utilizador mudou o modo de encarar a “interação homem – máquina – espaço envolvente”. Mas foi a partir da década de 1990, com a proliferação de computadores nos meios empresariais, que as metodologias de UX foram definitivamente incorporadas nos processos de projeto, desenvolvimento e produção. Hoje, estão presentes e influenciam praticamente todos os campos da atividade humana.

Já a metodologias de Agile têm as suas origens na indústria de desenvolvimento de software. Muitos recordar-se-ão de um cartoon que, nos anos oitenta do século passado, ironizava o desencontro entre o que o cliente necessitava e o que, no final de várias e dispendiosas iterações, de facto recebia. Estes desencontros faziam parte do quotidiano das empresas (que não apenas as de desenvolvimento de software), pois raramente os decisores assumiam a necessidade de compromissos difíceis entre o que se queria e o que era viável fazer, impondo sim, quantas vezes, requisitos perfeitamente irracionais. Também a comunicação entre cliente e fornecedor era deficiente, levando a que, muitas vezes, só se tomasse consciência do que estava a ser desenvolvido numa fase já muito tardia.

What_the_user_wants

Figura 1: “What the user wanted”.

Assim, em Fevereiro de 2011, na estância de ski de Snowbird, em plenas montanhas de Wasatch, no estado de Utah, reuniram-se desassete representantes das mais proeminentes organizações ligadas ao desenvolvimento de software. Ao final de dois dias produziram o “Manifesto for Agile Software Development” que, em resumo, procurava lançar os princípios de uma metodologia interativa, que valorizasse a comunicação e o feedback entre os intervenientes, que fosse adaptativa e que produzisse resultados parciais tangíveis, analisáveis e testáveis ao longo do ciclo de desenvolvimento total do projeto. O método clássico de desenvolvimento em “cascata” seria substituído por sequências de iterações curtas (habitualmente com a duração de duas semanas) de desenvolvimento e teste.

Em poucos anos, a metodologia Agile expandiu-se para diversos setores da atividade económica, estabelecendo sequências de objetivos “flexíveis” e estimulando a comunicação e a colaboração entre as partes, por forma a que o produto final fosse atingido de uma forma mais rápida, eficaz e eficiente.

Ausente das ideias originais da metodologia Agile, então apenas orientadas para o desenvolvimento de software (e onde as matérias de User Interface ficavam unicamente na responsabilidade dos programadores), cedo o UX foi incorporado, ajudando a definir as necessidades do cliente e a avaliar o nível de correspondência e usabilidade do que estava a ser desenvolvido, face a essas mesmas necessidades.

Manifesto_for_Agile_Software_Development

Figura 2: “Manifesto for Agile Software Development”.

É, hoje em dia, ponto assente que o UX deve entrar em parceria com a metodologia Agile no início do ciclo de vida do projeto, quando se definem os requisitos do produto e se cria o seu roteiro de desenvolvimento. A entrada do UX em fase posterior leva, inevitavelmente, a falhas de partilha atempada de informação relevante e a consequentes pontos de bloqueio.

No entanto, não é fácil conseguir esta cooperação, pois a metodologia Agile, de per se, não incorpora o tempo e os recursos de que o UX necessita. Também, quer o background quer o mindset dos profissionais das áreas de UX e de Agile são bastante diferentes.

Cabe assim à liderança da organização dar o devido suporte e garantir que as partes entendem os seus valores mútuos, assim como garantir que os objetivos parcelares da metodologia Agile sejam suficientemente flexíveis para incorporarem as necessidades das várias fases de UX.

As equipas de Agile têm de entender e incorporar os processos de UX.

Por outro lado, os elementos do UX têm de se conseguir antecipar às diferentes fases, por forma a pesquisar, criar, ponderar, melhorar e validar com rigor percebido as ideias e fases dos projetos. A equipa de UX tem assim de conseguir pesquisar, analisar e validar com a equipa de desenvolvimento Agile os passos da iteração seguinte. Enquanto isso, também tem de conseguir rever e validar o que se produziu na iteração anterior, com as implicações que tal possa ter na atual iteração… e nas seguintes. Um pouco como se estivesse a “viajar no tempo”, para a frente e para trás, entre as várias iterações do projeto.

Existe sempre alguma relutância inicial, por parte de organizações em que os projetos já são bem geridos e executados, em incorporar mudanças. Neste caso, juntar o UX ao Agile com êxito pode ser um processo complexo, com especificidades dependentes das organizações, tipo de projetos e prazos envolvidos. A gestão de pessoas assume então um papel charneira no sucesso desta mudança de paradigma.

Cada caso é um caso mas, tipicamente, consideram-se cinco regras base para o sucesso destes processos de mudança:

1 – Alocar ao projeto analistas e desiners de UX com elevada experiência e capacidade de liderança.

2 – Incluir uma “Iteração 0” no plano do projecto, destinada ao UX.

3 – Fragmentar q.b. os processos de UX e de desenvolvimento Agile, começando pelas funcionalidades e recursos necessários.

4 – Estabelecer dois fluxos paralelos, detalhados e mensuráveis, um dedicado ao UX e outro ao desenvolvimento Agile, por forma a que a área de UX se possa antecipar e recuar, consoante as necessidades de avanço do projeto global.

5 – Gerir permanentemente o backlog de falhas de usabilidade.

Fluxos_paralelos_UX_Agile

Figura 3: Fluxos de trabalho paralelos, entre UX e Agile.

Também aqui a formação dos intervenientes tem um papel fundamental no sucesso dos projetos. Os profissionais das metodologias Agile beneficiam de um conhecimento sólido das metodologias de UX e os profissionais das metodologias de UX devem ser também formados nas metodologias de desenvolvimento Agile.

Um desafio imenso, mas incontornável. Como alguém referiu em tempos…

“… We’re kind of flying the plane while we’re building it…” – Max Ventilla, Google


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1 Comment

  1. Excelente artigo! Que falta faz um maior cuidado com a experiência dos utilizadores em tantas aplicações…

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