Essencialmente nas últimas três décadas, a economia passou por uma profunda e extensa transformação digital. Graças ao avanço e difusão da ciência e da tecnologia, a adoção de soluções de software, serviços Web, plataformas digitais e algoritmos de inteligência artificial tem sido exponencial. Este acelerar das evoluções científicas e tecnológicas deu visibilidade e colocou na ordem do dia uma maior preocupação com o futuro do trabalho.

 

A verdade é que a inovação e a mudança são inevitáveis e, de certa forma, estão já em curso alterações profundas no modo como vivemos e trabalhamos. Sem pretender ser exaustivo, listaria apenas duas ou três “tendências” já perfeitamente observáveis no mercado de trabalho:

  • Adaptabilidade e descentralização de lideranças e equipas – A tradicional rigidez hierárquica está a evoluir para modos de gestão mais fluidos e ágeis, muito orientados a projetos. Esta agilidade de gestão torna-se também fundamental na liderança de equipas que, tirando partido das novas tecnologias, são mais descentralizadas.
  • Retorno não apenas financeiro – Não descurando o lado financeiro, claro, assiste-se ao ressurgimento de uma maior valorização de fatores intangíveis na atração, desenvolvimento e fidelização de colaboradores. A missão, o propósito e a imagem da organização assumiram níveis “eliminatórios”. Também a aposta explícita no desenvolvimento profissional e pessoal, assim como a possibilidade de trabalho remoto, como fator privilegiado na articulação entre a vida pessoal e a profissional, passaram a ser determinantes.
  • Aprendizagem permanente – Com o advento de máquinas “inteligentes” que, quando não substituem pura e simplesmente a pessoa, com ela “trabalham em parceria”, a aprendizagem permanente passa a fazer parte do próprio trabalho.

 

Há quem sustente, apontando para a década de quarenta do século XXI, que nos estamos a aproximar rapidamente da “singularidade” tecnológica referida por John von Neuman nos anos cinquenta do século passado. Tal “singularidade” levará a um crescimento económico explosivo, mas com índices de desemprego inimagináveis. Também John Maynard Keynes, na palestra “Economic possibilities for our grandchildren”, proferida em 1930, afirmava que…

“… dentro de um século o mundo já não discutirá a produção, nem a produtividade, pois existirá o suficiente para toda a humanidade…, mas à conta do massivo desemprego provocado pelas máquinas inteligentes…” – John Maynard Keynes

 

Cumulativamente a todos estes cenários e previsões, as disrupções sanitárias globais de 2020 e 2021 catapultaram as preocupações com a sustentabilidade do trabalho para um patamar ainda mais elevado. Será hoje aceite por todos que a última pandemia foi, muito provavelmente, a maior alavanca da década para a digitalização e automatização de processos e consequente transformação do trabalho.

Quase todas as consultoras lançaram, entretanto, estudos sobre o futuro e os novos modos de trabalho, nomeadamente sobre o chamado trabalho remoto, com resultados bastante alinhados. Ilustrando, por exemplo, com os dados disponibilizados pela McKinsey (“What’s next for remote work: An analysis of 2000 tasks, 800 jobs, and nine countries”), estima-se que mais de 20 % da atual força de trabalho poderia laborar remotamente entre três a cinco dias por semana (nem todo o mundo pratica a “semana inglesa”!) com a mesma (ou até maior) eficácia com que trabalharia nas instalações da empresa. Caso se concretize, só este cenário implicará três a quatro vezes mais pessoas em trabalho remoto, face aos valores pré-pandemia. Especialmente nas zonas urbanas, o impacto na economia, desde os transportes a outros gastos dos consumidores, será profundo.

Sem prejuízo de que, ultrapassadas as condicionantes impostas pela pandemia, o número de pessoas em trabalho remoto se reduzirá, a breve trecho esse número deverá voltar a subir, bastante.

As empresas que ainda não o fizeram terão de repensar e redesenhar os seus processos e operações fundamentais à luz dos novos paradigmas desta “era digital”. Definitivamente, e como se referiu, o modelo de trabalho evoluirá para um “híbrido”, com uma cada vez maior componente de trabalho remoto, em que se tentará obter e equilibrar o melhor dos dois mundos (do trabalho em casa e na empresa). A “mobilidade” no trabalho será a palavra de ordem!

A par do que o mercado já disponibiliza, surgirão sempre mais e melhores ferramentas colaborativas orientadas para a dita mobilidade, permitindo a realização ubíqua do trabalho e da aprendizagem, e uma comunicação “quase perfeita” entre as equipas. Em adição ao trabalho desenvolvido em casa, em espaços físicos de co-working e na empresa, as tecnologias de Realidade Virtual e Realidade Aumentada permitirão interações muito mais ricas e abrangentes do que as atuais soluções do Zoom, do Microsoft Teams e similares.

Apenas a título de exemplo e publicidade à parte, a plataforma colaborativa “Spatial” com tecnologias de Realidade Virtual e Realidade Aumentada (utilizável com qualquer dispositivo / sistema que suporte estas tecnologias – e.g., Android, iOS, Web, HoloLens, Oculus Quest, Magic Leap), ilustra bem o tema. Só em 2020, devido à pandemia, esta plataforma hospedou mais de meio milhão de reuniões virtuais, permitindo que as equipas colaborassem em espaços de trabalho 3D, criados com tecnologias de Realidade Virtual e Realidade Aumentada.

 

Imagens da plataforma colaborativa Spatial

Figura 1 – Plataforma colaborativa “Spatial”, com tecnologias de Realidade Virtual e Realidade Aumentada (Fonte: https://spatial.io/).

 

Empregabilidade no futuro…

Face aos desafios imediatos colocados pela pandemia, as preocupações com a sobrevivência das organizações e com o trabalho remoto ocultaram, de certa forma, um tema bem mais profundo que urge enfrentar e resolver de forma sustentável. A verdade “nua e crua” é que uma faixa crescente da população deixará de ser necessária no mercado de trabalho (como hoje o conhecemos). E esta será, porventura, a mais importante base de preocupação sobre o futuro do trabalho.

Colocando os números em perspectiva, para as cerca de quatro mil milhões de pessoas que formam a base da pirâmide económica (“The Fortune at the Bottom of the Pyramid: Eradicating Poverty through Profits”), o trabalho em modo remoto nem sequer entra na equação. Também para os milhões de pessoas que atualmente desempenham funções com menores exigências em termos de formação, dificilmente surgirá a oportunidade de um trabalho em modo remoto. Para muitas destas pessoas, o problema com que se defrontarão a curto/médio prazo (ou com que já se defrontam!) não estará nos modos remoto ou presencial do trabalho, mas sim no facto de pura e simplesmente já não serem sequer empregáveis…

Citando Jeff Maggioncalda, CEO da Coursera, sobre o futuro do trabalho face aos incontornáveis avanços científicos e tecnológicos referidos no início deste texto…

“… people who have the jobs that are going to be automated, do not currently have the skills to get the new jobs that are going to be created…” – Jeff Maggioncalda

 

Como referido em artigos anteriores, fazer comparações com o passado tende a dar-nos uma falsa sensação de conforto. Ao contrário das anteriores grandes revoluções da história da humanidade (a “Revolução Cognitiva” (iniciada há 70.000 anos), a “Revolução Agrícola” (iniciada há 12.000 anos) e a “Revolução Industrial” (iniciada há 500 anos apenas, mas com maior expressão nos séculos XVIII e XIX)), esta nova “revolução” vem alterar completamente o paradigma da evolução do conhecimento e da empregabilidade.

No imediato, a redução do número de horas/dias de trabalho semanal será uma tendência incontornável para garantir, por mais tempo, empregabilidade a um maior número de pessoas. Só que, de per se, não resolve o problema.

Note-se que todas as pessoas anseiam legitimamente por uma vida digna e preenchida, o que pressupõe uma atividade e… um adequado influxo financeiro. Pelo lado financeiro, o “Universal Basic Income” começa a ganhar peso como parte da possível solução. Mas como é que, de uma forma sustentada, uma solução que poderá custar 20% a 30% do PIB de um país, se poderá financiar? Muito provavelmente, e como grandes vultos da economia mundial propõem, através de uma pesada tributação das aplicações de sistemas e equipamentos que substituem, com vantagem, o trabalho humano. Mas para que tal se possa fazer, há que garantir uma base de métricas corretas e amplamente aceites que ainda não existem. Quantas pessoas representa uma determinada máquina inteligente? Com base em que “equivalente” se fará a sua tributação?

O conceito de métricas comparativas aplicadas ao trabalho desenvolvido por máquinas não é novo… No século XVIII, o engenheiro escocês James Watt comparou o desempenho do seu motor a vapor com o mesmo trabalho desenvolvido por um cavalo. Surgiu assim o “Cavalo-Vapor”.

 

Cavalo-vapor

Figura 2 – O “Cavalo-Vapor” (Fonte: http://www.Wkipedia.com).

 

No caso humano, estamos a falar de trabalho de cariz essencialmente intelectual. Mas, muito provavelmente, teremos de lançar mão de algo similar, mutatis mutandis. Uma qualquer medida “Homem-Máquina” que, uma vez estabelecida, seja um indicador universal, quantificável, do valor desses sistemas e equipamentos em termos do que seriam os seus equivalentes humanos. Os mecanismos de tributação seriam, assim, mais transparentes… Porque, “alguém” terá de abdicar desses 20% a 30% do PIB…

 

Aprendizagem permanente…

Enquanto isso, e qualquer que seja o caminho seguido para garantir a subsistência digna de milhões de pessoas, a aposta no desenvolvimento de competências, por parte das organizações e, também, das pessoas, é urgente e terá de se intensificar. A aprendizagem permanente (referida no início deste artigo) fará, cada vez mais, parte integrante e indissociável do trabalho. Seja ele remoto ou presencial.

Aprender para ganhar a vida, durante toda a vida! Requalificar e continuar a aprender, para que a fasquia da não empregabilidade possa ser “empurrada” no tempo, permitindo às pessoas acompanharem os requisitos crescentes da indústria, função do ritmo das mudanças científicas e tecnológicas.

Iniciativas coordenadas em larga escala e com uma elevada base de suporte, não apenas financeiro, serão cruciais para ganhar tempo através da construção de ecossistemas de trabalho humano mais robustos. Ecossistemas de trabalho em que as pessoas mantenham, com vantagem económica, a sua empregabilidade. Basicamente, e considerando o atual know-how sobre o ensino e a requalificação (em termos dos formatos mais adequados, dos custos envolvidos e do tempo necessário), são comummente considerados três grandes vetores de atuação, concertada e em larga escala, por parte das organizações e Estados:

  • Parcerias setoriais que, para cada setor (e, dentro destes, para cada indústria), identifiquem permanentemente as competências críticas (atuais e previsíveis) e as lacunas nessas mesmas competências, promovendo e desenvolvendo os adequados mecanismos adaptativos de formação e desenvolvimento.
  • Apoio direto às Pequenas e Médias Empresas que, regra geral, não dispõem dos recursos técnicos nem financeiros necessários para a requalificação eficaz e coordenada dos seus colaboradores.
  • Apoio direto às pessoas, por forma a tornar mais acessível a sua requalificação e desenvolvimento (g., planos de desenvolvimento acelerado, limitados no tempo, que incluam investimento individual com comparticipações empresariais e estatais).

 

Quanto tempo levará esta requalificação massiva da população? Não existe uma resposta fácil, mas serão anos… Independentemente da necessidade, é irrealista supor que as pessoas terão condições para suspenderem os seus trabalhos remunerados e investirem anos numa qualquer Universidade para obterem mais qualificações. Assim, as Universidades e demais escolas estão a fazer a sua parte, adaptando os modelos de formação às novas realidades. Numa perspectiva de aprendizagem sustentada ao longo da vida, começam a desenvolver (de motu proprio, ou em parceria com organizações de referência – e.g., Google, Facebook, NASA) ofertas estruturadas de programas certificados modulares, flexíveis e de menor duração e custo, que complementam e expandem os diplomas tradicionais.

“At the end of the day”, o sucesso global vai depender muito das pessoas e do seu compromisso em aprender. Compromisso sem o qual as iniciativas de suporte levadas a cabo pelas organizações e pelos Estados estarão votadas ao fracasso.

 

Em resumo…

Será este, muito provavelmente, e para a faixa da população que em cada época se mantenha empregável, o futuro do trabalho. Trabalho “móvel” e em “parceria” com máquinas cada vez mais “inteligentes”. Trabalho integrado e indissociável da formação e desenvolvimento permanentes das pessoas.

Qualquer que seja o ângulo por onde se analise o futuro do trabalho, a próxima década será determinante… E a responsabilidade pelo seu sucesso é da nossa geração!