Nos últimos anos temos observado um crescimento constante da presença de UX e Design de Interação no desenvolvimento de produtos e serviços. Essa presença começa a transcender o layout e optimização de ecrãs e passa também a influenciar a informação que é fornecida às pessoas e a forma como elas se relacionam no mundo real.

Ao reconhecer que, enquanto designers, temos uma posição privilegiada dentro das empresas e na conceção dos produtos/serviços que fazem e transformam a nossa sociedade, temos de assumir responsabilidades. Somos nós designers que moldamos e materializamos ideias, que as tornamos tangíveis e disponíveis para o mundo utilizar.

Como UX designers temos o dever de refletir sobre as consequências das nossas decisões. Precisamos, para além das nossas capacidades técnicas e de cumprir com os objetivos de negócio dos nossos clientes, ser igualmente bons a avaliar os efeitos alargados do nosso trabalho, qual efeito borboleta.

Como podemos utilizar os nossos conhecimentos e influência para tornar o mundo um pouco melhor? Alguns designers têm dedicado o seu tempo a responder a esta questão e a criar guidelines e frameworks que nos ajudam a fazer um trabalho mais consciente. Apresentamos aqui algumas ideias base para usares no teu processo de trabalho.

Estas guidelines foram criadas pelo designer Mike Monteiro, conhecido pelas suas palestras sobre os direitos e deveres dos designers, e neste artigo traduzimos e resumimos o seu ponto de vista.

 

O código de ética de um designer por Mike Monteiro

1. Um designer é primeiramente e sobretudo um ser humano.

Antes de seres um designer és um ser humano. Ao escolheres ser designer estás a escolher impactar as pessoas que entram em contacto com o teu trabalho de uma forma negativa ou positiva. Ao escolheres priorizar a economia ou uma determinada classe social estás a falhar como cidadão.

 

2. Um designer é responsável pelo trabalho que coloca no mundo.

Quando produzimos conscientemente algo que tem a intenção de ferir, abdicamos da nossa responsabilidade. Quando, na ignorância, produzimos algo que fere outras pessoas porque não consideramos todas as ramificações do nosso trabalho, somos duplamente culpados. O trabalho que trazes ao mundo é o teu legado. Ele vai sobreviver para além de ti. E vai falar por ti.

 

3. Um designer valoriza o impacto sobre a forma.

Precisamos de temer as consequências do nosso trabalho mais do que amamos as nossas ideias brilhantes. O Design não existe no vácuo. A sociedade é o maior sistema que podemos impactar e tudo que fazemos é parte deste sistema, bom e mau. Em última instância, devemos julgar o valor do nosso trabalho com base neste impacto, mais do que qualquer consideração estética.

 

4. Um designer deve ao seu cliente não apenas o seu trabalho, mas também os seus conselhos.

O teu trabalho não é apenas executar tarefas, mas sim avaliar o impacto do que estás a desenhar. O teu trabalho é transmitir isso ao cliente e, sempre que possível, apresentar uma solução que elimine o impacto negativo. Se não é possível eliminar o impacto negativo, é teu dever impedir que aquele produto chegue às pessoas de uma forma que as prejudique. Dizer “não” é uma habilidade do designer. Perguntar “porquê?” é uma habilidade do designer.

 

5. Um designer aceita críticas.

Nenhum código de ética deve proteger o trabalho das críticas, seja dos clientes, do público ou de outros designers. Em vez disso, deves encorajar as críticas para que seja possível criares melhores projetos no futuro.

 

6. Um designer esforça-se para conhecer os seus utilizadores.

“Design é uma solução intencional de um problema, tendo em conta um conjunto de restrições.” Mike Monteiro

Para garantir que estamos a resolver um problema para alguém, precisamos de conhecer as pessoas para as quais estamos a desenhar uma solução. É muito comum desvalorizar a parte de pesquisa de um projeto, por falta de tempo ou de verbas, mas como diz o mantra de UX “tu não és o utilizador”. Para abordar um problema precisas de ter acesso a outros pontos de vistas, considerar caminhos que vão para além do teu bias individual e da perceção que os clientes têm dos seus utilizadores.

 

7. Um designer não acredita em casos extremos.

Quando nos referimos a pessoas que não são cruciais para o sucesso do nosso produto como “casos extremos” estamos a decidir que há pessoas cujos problemas não valem a pena ser resolvidos. Eles não são casos extremos, são seres humanos, e devemos-lhe o nosso melhor.

 

8. Um designer é parte de uma comunidade de profissionais.

Fazes parte de uma comunidade de profissionais e a maneira como fazes o teu trabalho afeta toda a comunidade. Sempre que és desonesto com um cliente, ou trabalhas de graça, ou fazes um mau trabalho, é o designer seguinte que sofre as consequências. As tuas ações podem prejudicar a perceção das pessoas sobre os teus pares.

 

9. Um designer deve procurar construir a comunidade, não dividi-la.

Ao longo de toda a sua carreira, um designer procura aprender. Isso significa confrontar o que não sabe, ouvir as experiências de outros, acolher e encorajar pessoas que possuem antecedentes diversos, culturas diversas. A diversidade conduz a melhores resultados e soluções e a um design melhor. Devemos manter o nosso ego controlado e admitir que há sempre espaço para outras opiniões e formas de trabalhar.

 

10. Um designer dedica tempo para a auto-reflexão.

Tira algum tempo para auto-reflexão a cada poucos meses. Valida as decisões que tomaste recentemente. Mantens-te fiel a quem és ou sentes que tens vindo a alterar os teus parâmetros éticos? Se sentes que estás a mudar o teu rumo, podes corrigir isso, e se a empresa onde trabalhas é um inferno anti-ético, podes sempre mudar. O teu trabalho é uma opção, por favor usa desse direito.

 

Como profissionais, precisamos começar a incluir no nosso processo de trabalho não só o cliente e os seus objetivos de negócio, mas também os utilizadores, o meio ambiente e a sociedade como um todo interligado e interdependente.

É possível desenhar produtos com impacto positivo e com rentabilidade, cabe aos designers o esforço de resolver os problemas encontrados e aos clientes aceitarem um caminho menos óbvio para atingirem os seus objetivos financeiros. Ao aprenderes a apresentar os resultados da tua pesquisa e a incluir continuamente uma participação diversificada de outros designers e utilizadores estás a enriquecer todo o sistema. O nosso poder de negociação e os nossos conhecimentos são ferramentas fundamentais para encontrar um meio termo que não prejudique o universo à nossa volta.

 

Este artigo foi originalmente publicado no blog da Certificação UX-PM.