A sociedade tem de se preparar para uma perda massiva de empregos nos próximos anos (outros serão criados, claro). No último estudo do McKinsey Global Institute, “What the future of work will mean for jobs, skills, and wages”, estima-se que até ao final da próxima década, e só nos Estados Unidos da América, devido aos avanços nos campos da Robótica e da Inteligência Artificial, um terço dos atuais empregos deixem de existir… Cerca de setenta milhões. Extrapolando, mutatis mutandis, para o resto do mundo… caminharemos para oitocentos milhões de empregos que, pura e simplesmente, vão desaparecer numa dúzia de anos.

Note-se que, como referido no artigo “Estamos preparados para o Recrutamento Digital?”, as novas máquinas e algoritmos não necessitam sequer de atingir a perfeição…

“… Estes algoritmos e tudo o que lhes está associado não precisam de ser perfeitos. Apenas têm de ser melhores e mais baratos do que os “equivalentes humanos”, para serem adotados em larga escala…”

Estes estudos não pretendem ser alarmistas. Pretendem, sim, ser informativos e alertar a sociedade para a urgência de se preparar uma rápida transição social que, entre diversas abordagens possíveis e coexistentes, implicará um investimento sério e massivo na formação e “re-treino” da generalidade da população ativa.

Para além da necessidade de se “Ultrapassar o analfabetismo científico e tecnológico”, abordado num artigo anterior, o desenvolvimento de novos sistemas, a evolução de sistemas mais antigos, e a formação dos utilizadores desses mesmos sistemas, apresentam desafios de eficácia e eficiência ímpares na história tecnológica do mundo.

Neste ponto, a aplicação de metodologias de User Experience, especialmente em sistemas críticos e complexos, faz toda a diferença.

Estas metodologias têm as suas raízes nos campos da ergonomia e dos fatores humanos. Essencialmente após a Segunda Guerra Mundial, a análise da experiência do utilizador mudou o modo de encarar a “interação homem – máquina – espaço envolvente”. A partir da década de 1990, com a proliferação de computadores nos meios empresariais, as metodologias de User Experience foram definitivamente incorporadas nos processos de projeto, desenvolvimento e produção. Hoje estão presentes e influenciam praticamente todos os campos da atividade humana.

De uma forma muito simples e generalista (e dando como exemplo a General Dynamics), poder-se-ia decompor a metodologia de User Experience em quatro grandes blocos base, passíveis de várias iterações, neles próprios e entre eles:

1) “Análise” – Bloco focado nas pessoas e nos sistemas, onde se procura perceber com a profundidade e a abrangência viáveis, as especificidades do que o utilizador pretende, as suas características e os desafios que têm de ser ultrapassados…

2) “Projeto” – Bloco focado na modelação e prototipagem, em que, de uma forma iterativa se procuram incorporar as experiências do utilizador nas recomendações / especificações do produto final…

3) “Avaliação” – Os conceitos e soluções modeladas e/ou “prototipadas” são avaliados juntamente com o utilizador, de uma forma iterativa…

4) “Entrega” – Bloco focado nas recomendações / especificações finais para o produto a desenvolver / entregar ao utilizador.

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Figura 1: Círculos de User Experience da General Dynamics. (Fonte: General Dynamics Corporation)

Esta é uma matéria em que o mundo pode aprender bastante com os meios militares e com a indústria de defesa. Os seus sistemas são quase sempre críticos e complexos, ou mesmo “muito críticos e complexos”, e a minimização de erros humanos é imperiosa. Desde há décadas que, quer no desenvolvimento de novos sistemas, quer na evolução e/ou expansão de sistemas mais antigos, quer na formação dos utilizadores, estas entidades incorporam com sucesso metodologias de User Experience nos seus projetos.

A título de exemplo sobre a dita User Experience, a General Dynamics apresenta nos seus documentos a seguinte proposição…

“We study how people use technology – and then we make it easier to use”

A empresa aplica as metodologias de User Experience como uma abordagem interdisciplinar, interativa e iterativa ao desenvolvimento de sistemas. Uma abordagem que procura perceber e ir ao encontro das necessidades do ponto de vista do utilizador. Esta abordagem multidisciplinar vai ao “terreno” para acompanhar, perceber, identificar e resolver eventuais problemas de usabilidade que possam surgir. O foco está na otimização dos sistemas e interfaces, baseada no que os utilizadores podem, querem ou necessitam. Não o contrário, esperando que estes mudem todo o seu modo de atuar, apenas para acomodar uma nova tecnologia.

O sucesso de intervenções críticas (e.g., de âmbito militar) depende em muito da capacidade de os utilizadores, rápida e eficazmente, cumprirem as tarefas e atingirem os objetivos.

De salientar que, quando o domínio de atuação é o da indústria de defesa, com matérias classificadas, a aplicação de metodologias de User Experience enfrenta outros desafios, dado o nível de confidencialidade que envolve a maioria dos projetos. A utilização de equipas de User Experience com profundo conhecimento do terreno, consistência e domínio de conhecimentos técnicos e tecnológicos é fundamental. Sem prejuízo do importante contributo dos utilizadores, a atenção ao detalhe e às diferentes nuances e interligações de uma matéria específica, exige os conhecimentos que só uma equipa de especialistas consegue deter.

 

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Figura 2: UX, before and after. (Fonte: HARRIS Corporation)

A General Dynamics é, provavelmente, um dos mais conhecidos parceiros da área militar que aplica as metodologias de User Experience em grande profundidade. Mas a lista, claro, é extensa.

Paralelamente ao desenvolvimento de novos sistemas e à evolução de sistemas mais antigos, a formação dos utilizadores desses mesmos sistemas torna-se muito mais eficaz se, no seu desenvolvimento, forem incorporadas metodologias de User Experience. Idem para outros tipos de formações.

Com particular incidência nas cada vez mais omnipresentes formações “online”, a experiência do utilizador impacta determinantemente o envolvimento e a aprendizagem, assim como a eficácia da retenção das matérias.

A disponibilização bem organizada e fácil de perceber de conteúdos gráficos e multimédia, e de conteúdos de realidade virtual e aumentada, cria envolvimento, enriquece a experiência de aprendizagem do utilizador e incrementa o nível de retenção das matérias. Adicionalmente, dada a limitada capacidade de concentração contínua do ser humano, a divisão das matérias formativas em pequenas unidades tem-se revelado muito mais eficaz (para além de flexível) na concretização de objetivos específicos de aprendizagem.

Seguir os passos da metodologia de User Experience (“Análise”, “Projeto”, “Avaliação” e “Entrega”) pode fazer toda a diferença. Uma má experiência de utilização, para além de reduzir a eficiência e eficácia da formação, pode propagar uma perceção negativa a toda a organização.

Também a acessibilidade dos conteúdos formativos passou a ter um peso significativo na experiência do utilizador. A disponibilização em ambientes “responsive” multiplataforma / multidispositivo, onde adequado, passou a ser quase um dado adquirido. Needless to say… “Análise”, “Projeto”, “Avaliação” e “Entrega”, pois nem tudo se adequa a tudo da mesma maneira… Face à tendência a que se assiste em algumas organizações para permitirem e até incentivarem o “Bring Your Own Device”, especial atenção deverá também ser dispensada à aplicação das metodologias de User Experience aos diferentes dispositivos que os utilizadores possam trazer e a que a organização dê suporte.

Em resumo e de uma forma qualitativa, uma eficaz aplicação de metodologias de User Experience a sistemas, especialmente a sistemas críticos e complexos, e à formação aos utilizadores desses mesmos sistemas (assim como à formação num âmbito mais alargado), permite:

  •  Reduzir o tempo e os custos do desenvolvimento;
  •  Partilhar estruturas, padrões, componentes e software já desenvolvido, entre sistemas;
  •  Garantir a transferência precisa de dados e de conhecimento;
  •  Reduzir o tempo e os custos da formação;
  •  Incrementar a eficiência e a produtividade;
  •  Incrementar a satisfação do utilizador.

Num novo “Mundo 4.0”, com a predominância de sistemas digitais, a aplicação inteligente de metodologias de User Experience passou a ser uma condição sine qua non. Não basta à organização pensar que o seu sistema crítico e complexo é fácil de usar, ou que o seu site ou app são intuitivos. É imperioso que os seus utilizadores os percebam e os consigam usar correta e prolificamente.

Mais ainda é crucial que gostem de os usar!

Até porque pode fazer a diferença na sua maior ou menor “adaptabilidade”, nesse tal novo “Mundo 4.0”!

 


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