Uma parte significativa da “população ativa” do mundo ainda tem insuficiente literacia científica e tecnológica, tornando-se-lhe mais difícil perceber os riscos (e as oportunidades) deste novo “Mundo 4.0” em que já estamos mergulhados. É imperioso e urgente investir na sua formação e desenvolvimento.

O Presidente do Instituto Superior Técnico, Arlindo Oliveira, no seu artigo “Iliteracia tecnológica, o novo analfabetismo”, faz uma lúcida análise do tema. Reproduz-se aqui um excerto absolutamente marcante e elucidativo:

“… No final do século XX, quem não sabia ler e escrever estava, na prática, impedido de cumprir plenamente o seu papel de cidadão, por estar privado do acesso à informação e de uma forma adequada de manifestar publicamente as suas opiniões. No século XXI, quem não dominar minimamente as questões tecnológicas estará, de forma similar, impedido de desempenhar plenamente o seu papel na sociedade, por estar limitado na sua compreensão das complexas questões económicas, éticas e sociais que as tecnologias modernas colocam…”

Debrucemo-nos, a título de exemplo, sobre os cada vez mais difundidos sistemas de Inteligência Artificial…

Hoje, dificilmente se consegue explicar clara e exatamente o funcionamento dos mais modernos e poderosos algoritmos de Inteligência Artificial. Os sistemas são tão complexos que, mesmo os matemáticos e engenheiros que os concebem e desenvolvem, se revelam incapazes de isolar a razão por detrás de uma determinada ação.

Até há pouco, os modelos matemáticos utilizados em diversos campos, da advocacia à saúde, passando pela banca, pelos mercados mobiliários, pela área militar e até pelo recrutamento, tinham nas suas “regras” algum “determinismo”. Pelo menos teoricamente, conseguia-se perceber e explicar com alguma precisão o seu funcionamento. Nos dias que correm, as evoluídas abordagens de Machine Learning, em que os algoritmos podem ser reescritos pela própria máquina, em função dos dados disponíveis e dos resultados desejáveis, tornam virtualmente impossível “perceber porque aconteceu o que aconteceu” e porque foi tomada aquela decisão.

Parafraseando Tommi Jaakkola, do MIT:

“… Este é já um problema importante, que se vai tornar ainda mais crítico no futuro. É que, quer estejamos a falar de decisões de investimento ou de justiça, de decisões médicas ou militares, não podemos ficar apenas dependentes de ‘caixas negras’ que não sabemos como funcionam!…”

Como se não bastasse a crescente complexidade dos algoritmos, o caso torna-se ainda mais dramático se pensarmos que estes sistemas aprendem com os dados que lhe são fornecidos. Se estes dados estiverem “enviesados”, eles aprendem e geram conhecimento de forma “enviesada”, e tomam decisões de forma “enviesada”! Contudo, e pelo menos de uma forma percetível, nem as empresas e entidades que concebem, desenvolvem e produzem estes sistemas, nem os reguladores, nem os governos, se estão a preocupar. Mesmo aquelas entidades que sabem que os seus sistemas de Inteligência Artificial podem estar “enviesados”, manifestam muito maior preocupação com o seu balanço financeiro do que com a correção do dito “enviesamento”.

Com a proliferação de sistemas de Inteligência Artificial em aplicações que, cada vez mais, estão presentes em todos os aspetos das nossas vidas, estes temas da crescente complexidade e do possível “enviesamento” não detetado pode tornar-se dramático. Basta pensarmos que, segundo a IDC – International Data Corporation, já a partir de 2012 cerca de 50 % do PIB global será “digitalizado”, com todas as indústrias e setores a serem alavancados em sistemas digitais, com incorporação de sistemas de Inteligência Artificial nas suas ofertas de produtos e serviços, nas suas operações e em todas as suas interações e decisões.

No entanto, a população em geral, por desconhecimento, não está minimamente alerta para o assunto. Só que não há como continuar a ignorá-lo. Parafraseando Jeff Bezos, da Amazon:

“… A década de 2010 ficará marcada pelas redes sociais. A década de 2020, pela Inteligência Artificial…”

Felizmente, num ou noutro fórum o tema está na ordem do dia, considerando-se mesmo já que é um direito legal fundamental, perceber-se como e porquê um qualquer sistema de Inteligência Artificial chegou a uma determinada conclusão. Ao que consta, a própria União Europeia pretende que, a partir do segundo semestre de 2018, tal passe a ter força de lei.

Tudo isto é apenas um exemplo concreto dos riscos do analfabetismo tecnológico ainda vigente. Como se referiu no início deste artigo, uma parte significativa da “população ativa” do mundo ainda não tem suficiente literacia científica e tecnológica. Para além de ter dificuldade em perceber estes temas, o seu funcionamento e o seu impacto, em muitos casos, essa população não desenvolveu sequer qualquer “sensibilidade” para estar alerta para os riscos e oportunidades deste novo mundo. Os aspetos ligados à ciência e à tecnologia, pura e simplesmente, pouco ou nada lhe dizem.

Mas esta situação não nos apanha de surpresa. Note-se que a última grande onda de desejo de aprender temas científicos e tecnológicos esteve ancorada ao Programa Espacial Americano. Todos queríamos ser astronautas e engenheiros! Hoje, essa geração “técnica” ou está no final da sua vida de trabalho, ou já nem está entre nós. Com o fim do “elã” do programa, quase toda a juventude enveredou por outras áreas de estudo, o que provocou o enorme desequilíbrio de conhecimentos de que a humanidade padece atualmente.

Há que, rapidamente, desenvolver e aplicar formação que colmate este “gap” de conhecimentos.

Saliente-se contudo que esta formação em falta não tem, necessariamente, de ser assegurada apenas pelo ensino superior, ou pelas escolas. O setor empresarial pode e deve fazer a diferença, apostando na formação e desenvolvimento da base de conhecimentos científicos e tecnológicos dos seus colaboradores. Não apenas daqueles que, pelas funções, lidam diariamente com estes temas, mas de todos os colaboradores, a começar pelos vários níveis de gestão! É uma questão de sobrevivência. As organizações, para se manterem competitivas, têm de garantir que os seus colaboradores evidenciam um crescente domínio das ciências, da tecnologia, da engenharia e da matemática. Longe vão os tempos em que, sem grande risco, se podia assumir que a tecnologia dava suporte ao negócio. Hoje, a tecnologia é o verdadeiro “driver” do negócio!

São as empresas que, decisivamente, podem incrementar o nível médio de literacia científica e tecnológica base de toda a população ativa, como ação imediata e sustentada de elevação do nível de conhecimento e alerta para os desafios desta era do “digital”, do tal novo “Mundo 4.0”. Com as necessárias adaptações às suas realidades concretas, o desenho de programas formativos de explicação destes temas e sua articulação e impacto no negócio, a serem frequentados pelos colaboradores sem conhecimentos nestas áreas, incluindo os diferentes níveis de gestão, faria toda a diferença. Os conteúdos destes programas, claro, seriam atualizados com a periodicidade necessária, por forma a refletirem o rápido avanço da tecnologia.

A título ilustrativo, refira-se o recente anúncio do banco Capital One Financial Corporation (presente no índice “Fortune 500”), informando que vai iniciar um programa intensivo de formação avançada em diversos temas científicos e tecnológicos, abrangendo todos os seus colaboradores.

Referência desde sempre na formação empresarial, com ofertas formativas estruturadas em mais de duas centenas e meia de cursos, com este novo programa, que tira partido das atuais ferramentas tecnológicas de aprendizagem, o banco vai disponibilizar todo um leque de cursos científicos e tecnológicos que abrangem, inicialmente, seis tópicos fundamentais:

  • Engenharia de software;
  • Computação na cloud;
  •  Big data;
  • Tecnologias mobile;
  • Inteligência Artificial e Machine Learning;
  • Cibersegurança e ciberdefesa.

Os primeiros cursos serão, nem a propósito, os de Inteligência Artificial e cibersegurança. Mais cursos, cobrindo outros tópicos científicos e tecnológicos, serão adicionados dinamicamente.

Para além do desenvolvimento dos 50.000 colaboradores do banco em temas fundamentais para o negócio, potenciando a sua produtividade e motivação, o programa será também um forte atrator de “Top Talent” a nível mundial. Tanto no meio empresarial, como no meio académico.

Mas se as empresas podem ter um papel preponderante junto dos seus colaboradores, cruciais também serão as iniciativas empresariais junto das escolas, divulgando, promovendo e dando suporte a ações estruturadas que visem atrair os jovens para os estudos de temas científicos e tecnológicos (onde a “Building confidence by building computers”, do banco Capital One Financial Corporation é, também, um excelente exemplo).

Uma inteligente rede de parcerias entre escolas e empresas permitiria incrementar profundamente a atratividade das áreas científicas e tecnológicas para todo o universo estudantil, desde os bancos da escola, como base para a construção de uma “onda geracional” de pessoas devidamente preparadas para os desafios deste novo “Mundo 4.0”. Para além das necessárias revisões e atualizações curriculares, ações tão simples e testadas como:

  • Repescar, mutatis mutandis, a constituição de exposições itinerantes de “Ciência e Tecnologia para a Juventude” (com a presença de stands de universidades e de empresas), que pudesse marcar presença nas escolas e em eventos locais de relevo;
  • Promover o desenho e concretização de uma estratégia de presença dinâmica e motivadora, nas redes sociais e nos sites das escolas, dos temas de ciência e tecnologia.

Poderão fazer toda a diferença e garantir, a muito breve trecho, uma população jovem e adulta mais bem preparada para desenvolver e gerir todo este admirável mundo novo.

Quem sabe se a nova onda de programas espaciais, com a mediática “colonização de Marte” no horizonte próximo, não consegue contribuir fortemente para dar a “ignição” de todo este necessário movimento.


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