Vem este artigo a propósito da conferência Portugal eHealth Summit, onde a SPARK2D discutiu este tópico da Transformação Digital na Saúde e gerou bastante interesse. Devido à extensão, dedicaremos 2 artigos a esta temática, dos quais este é o primeiro.

Está na ordem do dia a Transformação Digital em praticamente todos os setores. Quando toca à Saúde, já sabemos que a sua especificidade é comentada por muitos devido à importância do seu objetivo último: tratar a doença e promover o bem-estar. Não ignorando que essa especificidade existe, somos da opinião que todos os setores apresentam as suas especificidades.

A Transformação Digital é um movimento que goza hoje de muita popularidade e, consequentemente, tem-se tornado uma buzzword muitas vezes abusada. Confunde-se com frequência uma qualquer evolução tecnológica com uma verdadeira Transformação Digital. Neste artigo usaremos o conceito estrito de Transformação Digital que já outras vezes defendemos e que pode ser detalhadamente clarificado neste artigo anterior.

Ora o é que isto da Polinização Cruzada e o que tem a ver com a Transformação Digital na Saúde? A expressão Polinização Cruzada vem do campo da inovação e significa trazer ideias inovadoras de outros campos para o nosso, como forma de evoluir mais rapidamente e encontrar novos caminhos.

Assim, a nossa tese é a de que na Transformação Digital é benéfico quebrar a lógica dos silos dos especialistas setoriais, em particular na Saúde, e olhar para o que está a ser feito noutros setores como fonte de inspiração e inovação. A saúde tradicionalmente vive barricada por agentes que só trabalham no setor e é frequente desvalorizar generalistas. Desta vez, ganharemos se nos inspirarmos em boas práticas de outros setores, quiçá mais evoluídos.

Vamos analisar o estado da Saúde em Portugal, segundo algumas caraterísticas essenciais da Transformação Digital, entendendo o que podemos ganhar com exemplos de outros setores. Neste primeiro artigo analisamos os pilares da transformação digital na perspetiva da saúde e no próximo artigo analisamos outros ângulos do tema.

Os Pilares Tecnológicos da Transformação Digital

Conforme descrito em detalhe no artigo mencionado, a Transformação Digital emerge devido à maturação de cinco tecnologias principais, que estão a modificar profundamente as nossas vidas pessoais e profissionais.

5 tecnologias transformação digital

1. Mobile

Toda a nossa vida está a ser influenciada pelos smartphones e a maioria de nós já não vive sem eles e as suas apps. A nível mundial, prevê-se que já em 2020 haja 1,03 smartphones por humano. No entanto, embora a saúde seja um setor onde a ubiquidade é muito importante por ter tantos profissionais móveis, a utilização profissional de sistemas móveis ainda não aproveita tudo o que a tecnologia dá. É certo que se estão a multiplicar as apps (mesmo públicas) mas ainda estamos no capítulo informativo. A maioria dos profissionais ainda dependem de um sistema que está disponível apenas num PC.

Tomemos como exemplo o setor da logística, igualmente dependente da enorme mobilidade dos seus agentes. Nessa área já muitos usam extensivamente aplicações móveis, seja em vulgares smartphones ou em aparelhos mais profissionais. O setor da saúde beneficiará se pensarmos as aplicações e os sistemas “mobile-only”, ou seja, exclusivamente para serem acedidos a partir de dispositivos móveis.

2. Social Networks

As redes sociais são hoje onde as pessoas passam tempo quando estão online, para … socializar, claro. E por esse motivo é onde estão disponíveis para serem influenciadas, informadas, etc.

Assim, as redes sociais são um excelente meio de informação e educação em massa. Há excelentes exemplos de Suporte ao Cliente nas tecnologias de informação, nos transportes e até na banca. O cliente é incentivado a colocar as suas questões e outros beneficiarão das respostas. Mas se o assunto é privado, o diálogo passa também a ser privado (por exemplo usando o Messenger do Facebook).

Na saúde ainda temos muito receio de usar as redes sociais, muitas vezes com argumentos relacionados com a regulação do setor. Por exemplo na indústria farmacêutica a maioria das empresas resiste em apostar nas redes sociais devido às obrigações de fármaco-vigilância, obrigações regulatórias que têm de seguir. Ou seja, se alguém menciona um efeito secundário de um medicamento, a empresa tem x horas para iniciar um processo de reporte nacional e internacional. Ora isto apenas implica ter um serviço de redes sociais com tempo de resposta garantido. Nada que não seja usual em muitos outros meios.

A nosso ver, a saúde em Portugal tem muito a ganhar em apostar em redes sociais enquanto meio de educação, promovendo os grupos de autoajuda, etc. Imaginemos uma evolução da Linha Saúde 24 nas redes sociais, combinando uma lógica de informação sobre patologias mais frequentes e com conselhos gerais. Sempre que alguém quisesse um conselho personalizado, passaria para um canal de chat com um enfermeiro, tal como hoje ao telefone. Faz sentido, não faz?

3. Big Data

A cada ano que passa o volume de dados na saúde duplica. No mundo, em 2016, 4,9 milhões de doentes foram monitorizados remotamente, o que gerou cerca de 1.000 eventos por segundo. Em 2020, os médicos vão ser confrontados com 200 vezes mais dados do que é humanamente possível processar. No entanto, apenas 20% dos dados do setor da saúde são utilizados, sendo os restantes 80% essencialmente dados não estruturados. Estas estatísticas mostram a revolução que o Big Data está a trazer ao setor da saúde.

Com efeito, esta revolução é transversal, mas muito evidente na saúde. Falamos habitualmente dos três “V”: Volume: hoje geramos uma quantidade inigualável de dados, seja ao nível das unidades de saúde, seja ao nível da nossa vida – por exemplo os wearables; Velocidade: Surgiram novas tecnologias que aceleram tremendamente a velocidade de processamento destes dados, mais exatamente mecanismos de indexação e acesso in memory; e Variedade: novas bases de dados suportam diferentes formatos e diferentes graus de incerteza. Os dados não estruturados contêm uma riqueza de informação que não conhecíamos. Por exemplo, ouvir as redes sociais pode permitir capturar dados para prever surtos de doenças antes de serem detetados por meios tradicionais.

Por todos estes temas, estamos em crer que a saúde, neste campeonato dos dados, não está atrás da maioria dos setores, embora haja desafios relevantes como o da privacidade dos dados, de que falaremos à frente.

4. Cloud

A Cloud já não é uma novidade mas há setores que tardam a fazer uma verdadeira transição para este modelo. A saúde é um deles. O que a Cloud nos trouxe, para além da dimensão técnica, foi flexibilidade e inovação. Associado ao modelo “as-a-service” está a lógica de que deixamos de fazer investimentos à cabeça, sejam eles em infraestrutura, em software de base, em aplicações, em contratos de manutenção de preço fixo, etc. As aplicações tornam-se serviços “pay-per-use”, em que o custo é proporcional apenas ao uso. Assim, as organizações passam a ter a opção de experimentar novas soluções, podendo mudar sem o ónus da amortização dos investimentos. E é por isso que a Cloud é potenciadora de inovação, porque se fica menos agarrado ao passado. Naturalmente há sempre custos de migração entre sistemas, mas pelo menos a componente de infraestrutura fica endereçada.

Os fabricantes de soluções de suporte a organizações de saúde (os HIS – Health Information Systems), mesmo em Portugal, começam a despertar para a realidade da Cloud, sendo que, ou já apresentam, ou estão prestes a apresentar modelos “as-a-service” aos seus clientes. O modelo de preço pode ser baseado em diferentes variáveis, por exemplo licenciando um determinado número de atos médicos.

No entanto a transição é lenta, essencialmente por dois motivos. Em primeiro lugar porque os departamentos de informática dos hospitais têm muita relutância em prescindir dos seus sistemas nas suas instalações. Este sentimento é natural em qualquer transição para a Cloud mas na saúde tem a agravante de que há vidas a depender daqueles sistemas. Este argumento pode ser mais ou menos correto, mas será sempre um tema muito preocupante para um decisor que esteja a ser aconselhado por quem resiste a perder o poder ou a influência relacionados com a gestão de um parque de máquinas num qualquer datacenter com poucas condições e garantidamente mais frágil que os dos grandes operadores. Existem soluções técnicas que resolvem este tema da criticidade, seja pela redundância das telecomunicações que ligam as unidades de saúde aos datacenters remotos, seja pela réplica local de sistemas fail-over que se ativarão aquando de uma qualquer catástrofe que isole as unidades do mundo exterior.

O segundo tema é o tema jurídico da privacidade dos dados, especialmente por serem dados privados de saúde.  Aqui convém dizer que há hoje um conhecimento muito maior destes temas por parte dos clientes, dos fabricantes, mas também por parte de vários escritórios de advogados que lançaram práticas de Direito de Proteção de Dados, Software e Novas Tecnologias. Em resumo, há a dizer que estamos na zona do globo com leis mais avançadas no que respeita à proteção de privacidade dos dados. Na Europa protege-se o direito do cidadão à sua privacidade, ao invés da América do Norte, onde se privilegia o acesso do Estado (e das famosas agências) a esses mesmos dados. Assim, recomenda-se que as entidades da saúde trabalhem com o adequado apoio jurídico, mas também técnico, no sentido de discutir temas como a garantia da localização concreta dos dados sensíveis em jurisdições adequadas (na Europa, ou mesmo dentro do nosso país), bem como as réplicas dos mesmos, etc. Esta transição já foi feita – não sem dor, é certo – em diversos setores e os benefícios ultrapassam claramente as desvantagens. Vale a pena endereçar os dogmas da singularidade dos problemas trazendo para a discussão quem já os ultrapassou noutros setores.

5. Internet of Things (IoT)

Em 2020, a IDC prevê que existam mais de 60 mil milhões de equipamentos ligados à Internet; a maior parte comunicará com “a rede” sem intervenção humana. Segundo a McKinsey, 130 milhões de consumidores mundialmente usam fitness trackers; em 2025 serão 1,3 mil milhões.

Esta é uma tecnologia que é muito atraente nos dias que correm, e a última das quatro a atingir a maturidade, que alguns ainda discutirão. A saúde, contudo, está na linha da frente da utilização massiva de IoT.

As potencialidades são gigantescas, prevendo-se que, para além da sensorização massiva dos hospitais, com inúmeros ganhos na qualidade, eficiência e eficácia dos cuidados de saúde prestados, haja também inúmeros avanços em termos de monitorização e medicação específica dos nossos corpos. A esse nível, diversas startups estão a surgir, não apenas com wearables, mas também com implantes injetáveis ou ingeríveis. Os doentes serão monitorados e aconselhados com base em sensores que se focarão em inúmeras varáveis relacionadas com o seu histórico clínico, a sua atividade, localização, condições exteriores, etc.

Assim, não nos parece que haja um problema de atraso neste pilar da transformação digital da saúde, em Portugal. São reconfortantes os dados sobre novas startups lusas focadas em eHealth e os programas de incubação, aceleração e apoio que várias entidades do setor lançaram.

 


 

Em suma, a Saúde pode beneficiar em olhar para exemplos de outros setores, especialmente nos pilares da mobilidade, redes sociais e cloud.

No segundo artigo desta série falaremos de outras caraterísticas da revolução digital, como os novos hábitos de consumo, a importância da experiência de utilização e os novos modelos de negócio. Veremos que também nestas áreas há muita polinização digital a trazer à saúde.

 


 

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