Em 2004, o Professor Coimbatore Prahalad, no seu livro “The fortune at the bottom of the pyramid”, alertava para a enorme capacidade empreendedora e poder de aquisição dos mais pobres, vistos de uma forma global. Prahalad insistia em que as empresas deveriam inovar e revolucionar os seus negócios, contemplando todas aquelas pessoas que estavam na “base da pirâmide económica” e garantindo assim a prosperidade das partes.

Nem a propósito, em 2017, o The Wall Street Journal no seu artigo, “The End of Typing: The next billion mobile users will rely on Video and Voice”, analisa a forma como o perfil tecnológico do próximo milhar de milhão de utilizadores da Internet (“the next billion”, como a indústria já os apelida) será muito diferente do habitual. Estamos, de novo, a falar da tal “base da pirâmide económica” e de uma faixa de utilizadores com um fraco nível de instrução que, tendo acesso a smartphones de gama baixa, a tarifários de dados muito competitivos e a aplicações fáceis de usar, entram pela primeira vez no mundo da Internet. Utilizadores que não vão usar “texto” para fazerem as suas pesquisas, ou para responderem a mensagens. Vão utilizar sim, a voz, a imagem e o vídeo.

Com mais este incontornável driver de negócio, a indústria tecnológica está a repensar as suas gamas de produtos e serviços, e os sistemas digitais que permitem a “comunicação natural”, com voz e vídeo, começam paulatinamente a deixar de ser vistos como exotismos. Todos estes avanços tecnológicos na área do “digital” permitem reforçar e dar corpo a novos paradigmas de preparação da humanidade para os novos desafios do conhecimento, seja a nível pessoal, seja a nível empresarial… o foco deste artigo.

Num ambiente cada vez mais marcado por parâmetros “VUCA” (Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity) e por uma taxa de obsolescência de competências e conhecimentos sem precedentes, as organizações perceberam que facultar aos seus colaboradores uma experiência de aprendizagem digital efectiva, convincente e sustentável, é crucial para o negócio.

Levar a aprendizagem necessária, à pessoa certa, no local certo e no momento adequado passou a ser o objetivo! Mais: para além “do que se aprende”, passou a ter especial impacto “o modo como se aprende”, com o surgimento de um novo paradigma possibilidado pela evolução tecnológica… O vídeo e os demais conteúdos multimédia passaram a dominar a arena dos conteúdos formativos:

O “look and feel” da nova vaga de plataformas e abordagens formativas tende a mimetizar completamente o “look and feel” da Televisão Digital (com funcionalidades de navegação multidirecional, motores de pesquisa, funcionalidades similares às das “Redes Sociais” e até recomendações dos pares e de algoritmos de inteligência artificial), numa lógica de canais, ao melhor estilo da NOS, Netflix, ou Amazon Video. É uma nova “Caixa Mágica”, na forma de um qualquer dispositivo com capacidades multimédia e mobile, a ligar o colaborador ao conhecimento.

A tradicional, estática e, quantas vezes, pouco apelativa página da formação da empresa evoluiu para algo dinâmico que nos pode acompanhar para todo o lado, no PC, no tablet, no smartphone.

Pode ser configurável pela empresa e pelo próprio colaborador. Pode ter, claro, as habituais formações institucionais e obrigatórias. Mas também toda uma série de secções e canais dinâmicos, abrangendo desde as formações recomendadas para a função atual, às recomendadas para diferentes níveis de responsabilidade (dessa função, ou outra [e.g., numa perspetiva de evolução de carreira]), passando por formações específicas e úteis para situações concretas. Pode ter formações organizadas por diferentes tipos de tópicos e formatos.

Pode ter ratings diversos para as diferentes formações, recomendações de outros colaboradores, recomendações em função do histórico ou de algoritmos mais complexos baseados em sistemas de Inteligência Artificial.

Pode ter, inclusive, secções e canais produzidos pelos próprios colaboradores. Tudo num ambiente de conteúdos multimédia.

Na “Figura 1” apresenta-se um exemplo do que poderá ser um interface ao estilo de TV digital, da CornerStone.

 

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Figura 1 –  Exemplo de interface, ao estilo de TV digital, da CornerStone.

(Fonte: Deloitte / Josh Bersin – Insights on Corporate Talent, Learning, Leadership, and HR Technology)

 

O mercado das plataformas e sistemas de formação corporativa está a adaptar-se rapidamente, com os principais fornecedores a apresentarem soluções inovadoras, não tanto no conceito de per se, mas na sua concretização.

A título ilustrativo, o maior fornecedor de plataformas de gestão da formação, a CornerStone, anunciou já este ano uma nova solução de open learning em que, em termos práticos, “funde” o Learning Management System com a Learning Experience Platform. O LinkedIn Learning caminha também para a fusão dos conceitos de Learning Management System com Learning Experience Platform, com a abertura a conteúdos de terceiros e um elaborado algoritmo de sugestões. Idem para a WorkDay, Saba, Oracle, SAP… e até para a SkillSoft com a sua nova plataforma Precipio.

É certo que outras plataformas como a Fuse, a Wisetail, a Jambok (hoje, SAP JAM), a Degreed, a Pathgather e a EdCast, há alguns anos que permitiam este tipo de funcionalidades, numa abordagem “over the top” face aos Learning Management Systemas tradicionais. A diferença, hoje, está em que os grandes nomes do mercado estão já a incorporar e desenvolver o novo paradigma, oferecendo soluções “cloud-based”, convergentes e integradas, não apenas de formação “full multimedia”, mas também de recrutamento, gestão geral, gestão de performance, analytics e desenvolvimento de Capital Humano.

Também o mercado dos conteúdos formativos se reinventou e oferece, quer aos particulares quer às empresas, uma infinidade de cursos e formações assentes neste novo ecossistema tecnológico. Primeiro, com o advento dos “MOOC – Massive Open Online Course”, e nos últimos anos, com a explosão de conteúdos baseados em vídeos.

Hoje em dia, é difícil não encontrarmos na Internet um qualquer vídeo formativo que nos ensine a fazer (quase) o que quer que seja. Entidades como a TED, o LinkedIn Learning, o YouTube, a Khan Academy, a McKinsey, o MIT, a Harvard Business School, a Stanford University, a University of Chicago, o INSEAD, a Google, o World of Business Ideas, a LearningHubZ e centenas de outras, disponibilizam vídeos formativos sobre quase tudo o que se possa imaginar.

Já quanto aos “MOOC – Massive Open Online Course”, a título ilustrativo e segundo a Class Central, desde 2011 (quando o primeiro foi criado e disponibilizado pela Stanford University), estima-se que até ao final de 2016, mais de 700 organizações (agrupadas em mais de uma centena de “providers”) tenham produzido e disponibilizado 6850 cursos diferentes, com um total de mais de 58 milhões de estudantes inscritos. Só os cinco principais agregadores, contabilizavam mais de 48 milhões de estudantes (Coursera – 23 milhões; edX – 10 milhões; XuetangX – 6 milhões; FutureLearn – 5,3 milhões; Udacity – 4 milhões).

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Figura 2 –   Principais fornecedores / agregadores de MOOC, no final de 2016.

(Fonte: MOOC List)

 

Um urgente novo mundo na gestão e desenvolvimento de Capital Humano

Os estudos demográficos (“Projecções 2030 e o futuro” – Fundação Francisco Manuel dos Santos) apontam para que, daqui a uma dúzia de anos, a percentagem da população portuguesa com mais de 50 anos seja de 48% ou 49% (não deverá ser muito diferente do restante “mundo ocidental”). Este “Tsunami grisalho” provocará inevitavelmente uma escassez de população ativa qualificada, colocando um crescente desafio na eficiência e eficácia da sua formação e desenvolvimento.

As soluções referidas têm necessariamente espaço para melhorar, mas a tecnologia está a evoluir e a mudar o paradigma da formação.

O desafio é imenso, mas o mundo e as organizações têm hoje acesso a soluções tecnológicas e conteúdos formativos que, a um custo sustentável, podem levar formação de qualidade a todas as pessoas. A todos os locais. A cada momento.


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